Uma Visão sobre a

História da Medicina no Mundo

Esta retrospectiva histórica mostra-nos que a Medicina em todas as suas vertentes é a união de culturas, experimentos científicos e empíricos, religiosidade e acima de tudo valores humanos. É nesta força que temos de acreditar, num tempo em que as fronteiras já não seguram as populações a um lugar só, facilitando a mistura e a propagação de doenças, mas também de interacção de saberes. Onde evoluir é mais fácil, porque os recursos hoje são maiores.
Hipócrates via a Medicina como uma forma suprema de arte, porque exige o conhecimento e a capacidade de aperfeiçoar o corpo humano.

Os desenhos anatómicos de Leonardo Da Vinci, (que não era médico) ou as descrições de Vesálio abriram o caminho ao raio X e às mais modernas técnicas de observação. Na arte descrita por hipócrates, durante a época do renascimento, juntaram-se anatomistas e artistas para mapear o interior do corpo humano.

Desde 1838, data da descoberta da célula até 1972, o ano da descodificação da primeira sequênciação de um gene, decorreram 175 anos de descobertas. O ser humano vive na constante descoberta pelo elixir da vida.

A cientista  portuguesa, Clara Pinto Correia, afirma, numa entrevista dada para a revista Visão em 2017, que a cultura ocidental  se enamorou da ideia de uma medicina capaz de eliminar a doença e o declínio, no entanto a história mostra-nos que todas as civilizações, ao longo dos tempos, buscam pelo mesmo poder, apenas cada uma faz uso de recursos  científicos, empíricos, sociais e culturais diferentes.

Apesar de a Ciência Médica (Medicina), não ter sido fundada pelo médico grego Hipócrates, nos séculos IV e V a.C, é a ele que se deve a sua sistematização, estabelecendo os fundamentos que lhe serviram de base ao longo de mais de 2000 anos.

Da medicina hipocrática houve outra área, a Naturopatia, que progrediu ao longo dos dois mil anos assente na definição “Vis Medicatrix Naturae”, onde o conceito articulador é o do corpo (physis) em harmonia com a natureza (naturae) que tem a força intrínseca de curar (vis curativa). A medicina hipocrática, defende que, sem esquecermos a dimensão universal, a natureza individual de cada ser humano, explicada a partir da combinação dos quatro humores terá a capacidade de se auto regenerar.

Na China, a história da medicina tem outras formas de ser aplicada, que datam de há mais de 5300 anos..A Medicina Tradicional Chinesa, de acordo com as mais recentes evidências científicas, alcançou através da acupuntura e fitoterapia chinesa o seu maior destaque e é uma das mais propagadas ao longo dos séculos.

Da Índia, temos a Medicina Ayurvédica AYU, significando “vida”, e VEDA, “conhecimento ou ciência”.  O Ayurveda teve origem nos Vedas, a mais antiga literatura do mundo, onde eram registrados todos os conhecimentos que pudessem ser úteis à humanidade: engenharia, física, astrologia, biologia, toxicologia, filosofia, teologia, hábitos sociais, culturais, ancestrais e de rituais com a natureza. A civilização mais antiga de que se tem notícia é a de Harappa, que surgiu por volta de 3000 anos a.C. e a sua cultura dominou o Vale Hindu por talvez 1500 anos.

Na América Central, a Medicina Indígena, faz uso de todos os recursos da natureza, onde as plantas (fitoterapia) e o barro, (minerais da terra) são o milagre da cura e dos tratamentos, associados à religiosidade (cristianismo) e rezas (crenças ancestrais indígenas). Em 2017 foi criado o primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazónia, chamado de Barserikowi’i., um projeto que une o saber científico com o indígena.

Medicina Tradicional da África Ocidental, ao longo dos tempos tem sido severamente subestimada pela ciência. Hoje, séculos depois de descaso com as técnicas de cura africanas, pesquisadores do mundo todo começam a reconhecer a eficácia dos tratamentos desenvolvidos. Misturando métodos biomédicos, dietas e jejuns, ervas terapêuticas, banhos, massagens e pequenos procedimentos cirúrgicos, a sabedoria médica africana é a favorita de seus habitantes. Hoje, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 80% da população do continente confia os seus cuidados à medicina tradicional.

O mesmo acontece na Austrália, Nova Zelândia, nos povos do Ártico e da Antártica. Todos desenvolveram através dos ciclos de  evolução das espécies, adaptações e melhorias na forma de viver e resistir às doenças e às alterações climáticas.

As práticas e experiências da medicina  são uma sabedoria  passada de geração em geração, com formações sociais que implicam em lições de procedimentos de diagnóstico, recursos medicinais, preparação de receitas médicas, administração dos medicamentos e, sobretudo, treinamento teórico, prático e espiritual adequado, independente da região do planeta.

Na África Oriental, os Árabes  trouxeram para a Península Ibérica o progresso científico da época de ouro do Islão, onde escutar as queixas do paciente fazia parte da sabedoria clínica. O médico Al-Zahraawi, desenvolveu o primeiro conceito de cirurgia e desenvolveu o fio cirúrgico. Este especialista do passado, deixou para as gerações seguintes mais de 300 páginas escritas sobre procedimentos cirúrgicos e tratamentos que seguiam os princípios hipocráticos, onde um dos procedimentos era a drenagem dos fluídos corporais..

Em Portugal, o médico e cientista Garcia da Orta, foi o primeiro a mostrar que a Medicina Científica e a Fitoterapia podiam conviver e atuar no tratamento de doentes. Em 1563, Orta publica, em Goa a sua obra, Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas da Índía, traduzida para latim, pelo botânico Charles de L’ Écluse,  onde Luís Vaz de Camões, inclui a título de presente pelo feito, um poema,

Orta «Cantado por Camões»

Favorecei a antiga

Ciência que já Aquiles estimou;

Olhai que vos obriga,

Verdes que em vosso tempo se mostrou

O fruto daquela Orta onde florescem

Plantas novas, que os doutos não 

conhecem…

… E vede carregado

De anos, letras, e longa experiência,

Um Velho que ensinado

Das gangéticas Musas na ciência

Podalíria subtil, e arte silvestre,

Vence o velho Quíron de Aquiles mestre.

O qual está pedindo

Vosso favor e ajuda ao grão volume,

Dará na Medicina um novo lume,

E descobrindo irá segredos certos

A todos os antigos encobertos.

Fonte, do texto, Revista Visão História, Medicina cinco mil anos de avanços, Março 2017

A implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2015-2030 da ONU, pressupõe uma partilha de esforços inédita à escala global, entre todos os países e atores públicos e privados, onde deve existir um trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo para criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o ambiente e combater as alterações climáticas.

“Organização Mundial de Saúde” (OMS) define a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.

A noção de saúde sofreu até aos dias de hoje uma restruturação, onde a visão de saúde, estática e formal. já não faz qualquer sentido.

Sabemos agora que  o bem – estar e a saúde são fruto de uma acção, dinâmica, social e sócio económica, como resposta do indivíduo e as condições do meio onde vive.

Esta resposta deve ser analisada sob três planos ou dimensões: saúde física, saúde mental e saúde social. e é este o pilar defendido pela Epigenética.

Paula Mouta

Fique atualizado sobre este evento

Assine a nossa newsletter

0